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Defesanet. 04 Junho 2002

Para Botelho, Embraer daria salto com Mirage/BR
O Estado de São Paulo  03 Junho 2002

( em  duas partes )                                        Segunda Parte


Segundo o presidente da empresa, venda de versão nacional do caça para a FAB pode levar a uma revolução similar à causada pelo projeto AMX

A escolha do Mirage 2000-5/BR na licitação do governo para a compra dos novos caças da Força Aérea Brasileira (FAB) pode representar um novo salto tecnológico para a Embraer, segundo o presidente da fabricante de aviões brasileira, Maurício Botelho. Em entrevista aos jornalistas Roberto Godoy, José Márcio Penido e André Siqueira, o executivo comparou os benefícios da eventual vitória na licitação à verdadeira revolução tecnológica ocorrida a partir dos anos 80, depois que a Embraer começou a fabricar os jatos AMX para a FAB.

Botelho admite que o custo dos novos caças, se fabricados no Brasil, será mais alto que o dos concorrentes. Mas ressalta que os benefícios do total domínio brasileiro sobre os sistemas eletrônicos e de armamentos do avião compensam o custo extra. A possível superioridade técnica do caça
russo Sukhoi-35 Super Flanker, segundo avaliações de especialistas em aeronáutica, não será o critério preponderante na escolha do governo, na avaliação de Botelho. "Existem vários protótipos do Sukhoi-35, mas nem a Força Aérea russa o utiliza e nenhuma Força Aérea ainda o comprou", avalia.

Na entrevista, transcrita abaixo, Botelho reafirma a intenção da empresa de abrir uma fábrica na China, numa parceria com a estatal chinesa Avionic 2, conforme o Estado adiantou em reportagem no dia 28. O executivo também comenta a crise da aviação civil depois de 11 de setembro, que travou as vendas da Embraer no primeiro trimestre do ano. A nova disputa com a rival Bombardier, para a venda de 70 jatos regionais para a US Airways, também é vista com cautela, diante da fragilidade financeira da companhia aérea americana, que ameaça pedir concordata, mas está disposta a gastar em torno de US$ 1,4 bilhão com os novos aviões.

Estado - Se o senhor fosse o relator da licitação da FAB, por que escolheria a proposta da Embraer?

Maurício Botelho - Porque acho que é a que atende aos aspectos estratégicos fundamentais da implantação de uma frota de aviões de superioridade aérea. Vamos olhar as guerras árabes e israelenses. A Força Aérea israelense teve vitória preponderante e definitiva sobre a árabe. A israelense equipada basicamente com F-15, e a árabe com Mig-29. São aviões de mesma classe, mas por que os israelenses tiveram predomínio? Porque tiveram atrás da Força Aérea uma indústria capaz de colocar os aviões no nível máximo de operacionalidade e empregar qualquer armamento disponível. Isso pelo conhecimento dos softwares e dos códigos-fonte dos softwares.

Estado - O que são os códigos-fontes do avião?

Botelho - Os códigos-fontes são os algoritmos que permitem modificar o software para que receba e processe sistemas que não aqueles que inicialmente vieram com o avião. Isso é a autonomia tão desejada por uma Força Aérea, ter independência de fontes de suprimentos. O que nós estamos
oferecendo à Força Aérea brasileira é um produto que chamamos Mirage 2000 BR. Não é o Mirage 2000/5 MK2, uma vez que incorpora uma série de funções especificadas pela FAB.

Estado - O senhor está dizendo que a oferta da Embraer dará mais independência à FAB?

Botelho - Isso assegura que a FAB poderá operar esse avião como quiser e empregar as fontes de armamento que estiverem disponíveis, não ficando condicionada à vontade política de um determinado país que terá poder de controlar a exportação daquele armamento para o Brasil. Como se mede isso?
Não é dinheiro, é valor estratégico imensurável.

Estado - Os outros não podem fazer uma oferta dessas?

Botelho - Poder, podem. Mas não conseguem, por causa da vontade política. Não estamos falando de canhão e metralhadora, estamos falando de mísseis inteligentes. São armamentos extremamente sensíveis. A gente vê, por exemplo, falácias correndo hoje no mercado, que o governo americano autorizou a exportação dos mísseis AMRAAM para o Brasil. Não autorizou. O Congresso vai dizer. A mesma conversa existia na disputa do Chile, que depois de três anos escolheu o F-16. Pois bem, o Congresso americano autorizou a venda dos mísseis, desde que estocados nos EUA. Isso ofende a dignidade de um país que quer ser soberano.

Estado - Em termos de qualidade específica, os produtos são similares?

Botelho - Absolutamente similares. Quando a gente fala em avião, estamos falando da máquina que voa e dos sistemas. Isso pode ser muito bem visto no F-16. É máquina do final dos anos 70 e vem com evoluções paulatinas em cima daquilo que tem dentro do avião. A máquina é a mesma. Aquilo que está dentro do avião e o faz uma máquina de guerra, evolui substantivamente.
O F-16 é um ótimo avião, sem a menor dúvida, mas tem um obstáculo aí fundamental: não vem nada de tecnologia nem de armas.

Estado - E quanto aos outros concorrentes?

Botelho - Não tem nenhum igual ao outro, mas todos desempenham a missão, com algumas diferenças. Por exemplo, a BAE e a Saab alardeiam que o Gripen é um avião de quarta geração. É tão de quarta geração quanto o Mirage 2000/5 MK2 e o F-16, as variações são tênues. O Gripen foi projetado para o teto de guerra da Escandinávia. Não tem autonomia para defesa aérea de um
território como o nosso. Estarão projetando um sistema de reabastecimento de vôo incompatível com o que a FAB usa. O Sukhoi-35 é um grande avião, desenvolvido para exportação. Está em nível de protótipo, há vários, mas nem a Força Aérea russa nem ninguém o comprou. Então pode ser maravilhoso, e é formidável, mas qual o aspecto logístico por trás do fato de não ser operado?

Estado - Os russos fizeram parceria com a Avibrás. Isso não pode garantir transferência de tecnologia?

Botelho -
A Avibrás diz que tem um consórcio. Mas tem de satisfazer as condições econômicas, financeiras, técnicas e industriais, todas elas, e a Avibrás também não está numa situação para assumir esse tipo de responsabilidade. A Avibrás é competente para sistema de artilharia, não é
uma indústria aeroespacial. É preciso ter capacidade instalada. Tecnologia não se passa no papel. Depende da vontade do transferidor e da competência do receptor.

Estado - Caso a Embraer seja a escolhida, o que representará a possibilidade de assimilação tecnológica?

Botelho - Se não tivesse havido o AMX na década de 80, nós não teríamos na década de 90 assumido esse papel extremamente relevante na indústria aeronáutica mundial. Porque a revolução promovida pelo AMX se transformou na nossa capacidade de construir jatos comerciais e ter 35% do mercado mundial. Isso representa para o Brasil uma enorme riqueza. Nós temos contribuído para a balança comercial do Brasil, com cerca de 50%, líquidos. No ano passado foi 36%, por causa de 11 de setembro, quando os estoques cresceram e as saídas foram adiadas.

Estado - Existe a possibilidade futura de o Brasil se tornar base de exportação do Mirage?

Botelho - No nosso acordo com os franceses, a transferência de tecnologia é total, incluindo a estrutura aerodinâmica num avião supersônico, que nós não temos e só teremos se praticarmos isso. Tivemos todo o conhecimento dos sistemas, teremos os códigos-fonte e teremos montagem, integração do sistema e testes de aceitação de entrega no Brasil, além da capacidade de exportar o produto para o mundo.

Estado - A proposta da Embraer é mais cara do que a dos concorrentes?
Botelho - Certamente, o avião mais barato será aquele que vier pronto de fora. Os preços não foram abertos. Mas em termos de avaliação lógica, se o avião vier de fora, custa menos do que se passar por esse processo de desenvolvimento e transferência de tecnologia para cá.

Estado - Com a crise da aviação civil, o mercado militar passará a pesar mais na carteira da Embraer?
Botelho - Estrategicamente, até 97, cerca de 60% da nossa receita era de aviação comercial e 40% era defesa. Hoje, 87% é da aviação comercial e 5% da defesa. Então, estrategicamente, nós queremos e vamos aumentar essa fatia. A minha visão é a de que em cinco anos, em 2006, estejamos com defesa, aviação corporativa e serviço ao cliente representando cerca de 30% da nossa receita, sendo 20% só da defesa.

Estado - Como anda a mais nova grande disputa com a Bombardier, para a venda de 70 jatos para a US Airways?
Botelho
- As solicitações foram feitas e as propostas, já entregues. São propostas que consideram o momento especial que a empresa passa. A US está numa situação extremamente delicada, brandindo a bandeira do Chapter 11, quer dizer, da concordata, para renegociar todos os seus compromissos. E ela está pedindo também ao governo federal americano aquela ajuda especial para linhas aéreas, de US$ 1 bilhão. Se nós considerarmos que depois de 11 de setembro quatro linhas aéreas pediram esse suporte e só uma conseguiu, as coisas não são fáceis.

Estado - Mas o senhor considera que eles têm como sair da crise?
Botelho - A equipe que hoje está responsável pela gestão da US Airways é competente, sabe o que está fazendo. O plano de negócio que eles estão apresentando faz sentido. A equipe viveu situação assemelhada na Continental, no início dos anos 90. A Continental ressurgiu a partir do Chapter 11, eles sabem o que significa. Já no Brasil a concordata é a ante-sala da falência.



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